Boletim
escolar 2

As Bases
Como anotar
e ler lances de xadrez
O
sistema algébrico é um sistema de
anotação de lances de xadrez muito prático e fácil de aprender, sendo
utilizado
em todo o mundo do mesmo modo, especialmente quando se usam figurinhas
para
indicar que peça se moveu
,
sendo também usado nos
computadores.
O
sistema algébrico funciona como o jogo da batalha naval e utiliza 8
colunas
(abcdefgh) e
8 linhas (12345678).
Assim, podemos identificar todos os quadrados
(casas) do tabuleiro por um par constituído por uma letra e um número.
Por
exemplo, no diagrama; e4
é a casa onde está o peão
.

Exemplos
de anotação
Com
figurinhas

Ou
com as peças escritas com as maiúsculas iniciais das peças
Ou
1.e4
e5 2.d4 exd4 3.Cf3 Cc6 4.Bc4 Cf6 5.0-0 Be7 6.Cxd4 Cxd4 7.Dxd4 d6 8.f4
b6
9.e5 d5 10.Bb5+ Bd7 11.exf6 Bc5 12.Te1+ Rf8 13.fxg7+ Rg8
14.gxh8=D++. 1-0
Ou ainda
com os tabuleiros dinâmicos (clique nas setas ou em cima na
própria notação)
Ao
anotar o lance (obrigatório em partidas de competição federadas),
primeiro
escrevemos qual a peça que jogámos [cada peça também pode ser
representada pela
sua primeira letra em maiúscula (Rei=R,
Dama=D,
Torre=T,
Bispo=B e
Cavalo=C)] e
depois a casa de chegada da peça. Para os
movimentos de peão, basta escrever a casa de chegada (não é
necessário
escrever
a letra P de peão). Num sistema completo (raramente usado) também se
pode
escrever a casa de partida (necessário apenas quando há duas peças
iguais que
podem ir para a casa de chegada, a partir de casas de partida
diferentes).
Vejamos
uma jogada completa (com os lances das Brancas e das Pretas) da
anotação da
partida de cima (debaixo do diagrama do peão). 6. Cxd4
Cxd4 (ou 6. Cf3xd4 Cc6xd4 ou
).
Isto quer dizer que na sexta jogada, as brancas jogaram o seu Cavalo da
casa f3 para a casa d4 comendo (o x significa uma captura) o que lá
estava (um peão), e as pretas responderam, capturando com o
seu
Cavalo
de c6 o cavalo branco que ficara em d4. Se acontecer um xeque, como na
jogada 10.
Bb5+, a seguir à casa de chegada acrescentamos o sinal +.
Há
lances que têm uma anotação especial, como o roque. Por exemplo em 5. 0-0,
as brancas rocaram curto na sua jogada cinco (roque grande seria 0-0-0).
Em 14. gxh8=D++,
na jogada 14, o peão de g7 capturou o que estava em h8
(uma torre) e promoveu-se a dama, dando simultaneamente xeque-mate (++
ou
#).

A
origem do xadrez

Ninguém
sabe ao certo quem
inventou o
xadrez, e existem muitas teorias sobre qual a sua origem. Alguns
historiadores
acreditam que foi Palamedes, chefe do exército grego, que para entreter
os seus
soldados criou a Petteia, jogo muito popular e parecido com o xadrez.
Outros pensam
que o xadrez foi inventado na Índia por Sissa, ministro de um rei que
tratava
muito mal o seu povo. Sissa, para dar uma lição ao seu rei, inventou um
jogo
chamado Chaturanga, onde o rei, apesar de ser a peça mais importante,
dependia
sempre da ajuda de todas as outras, até das mais fracas. O rei ficou
encantado
com o jogo e decidiu recompensar Sissa com um desejo. Este pediu um
grão de
trigo para a primeira casa, dois para a segunda, quatro para a
terceira,
dobrando sempre o número até à casa final 64 do tabuleiro. O rei,
habituado a
fazer tudo o que queria, sem pensar, disse logo que sim! Porém, assim que deu a
ordem para satisfazer o pedido de Sissa, logo percebeu que seria
impossível
juntar tanto grão de trigo [exatamente
a soma de
1+2+4+8+16+32+64+128+256+512+1014+2048+4096+ ..... +
9.223.372.036.854.775.808
na casa 64, dando a extraordinária soma de 18.446.744.073.709.551.615 grãos
(aproximadamente 1019), ou seja
18 triliões, 446744
biliões
73709 milhões, 551615 – cuidado que no Brasil ou nos
Estados Unidos mil
milhões é logo um bilião (ou bilhão). Em português europeu são
necessários um
milhão de milhões para se chegar ao bilião] Mesmo toda a
produção de trigo da Terra nos últimos
dois séculos - que foram bem mais produtivos que os da época... - seria
insuficiente!

O ministro explicou então que renunciava ao desejo que
sabia
ser impossível de realizar e que o prazer de inventar tão interessante
jogo lhe
bastava, mas aconselhou o rei a pensar bem antes de tomar decisões,
algo que
qualquer jogador valoriza, cada vez mais, à medida que vai descobrindo
os
segredos do xadrez. O rei, agradecido, promoveu Sissa a
primeiro-ministro
e seu
conselheiro.
Segundo
a teoria do «Big Bang»,
estima-se que, no Universo observável até 46 mil milhões de anos luz,
existam,
segundo cálculos de físicos especializados, 1080
átomos
(número que
nem
nos atrevemos a escrever por
extenso...). Mas este número astronómico é muitíssimo menor do que o
número de
jogos diferentes, possíveis, de xadrez em apenas 40 jogadas (ou 80
lances): 10120, de acordo com
cálculos feitos por matemáticos afamados [note-se a diferença entre
ambos os
números (10120 – 1080) não é 1040,
mas sim um
número com 40
algarismos '9' multiplicado
por 1080].
Mate
com a dama
1
2

3
4
Mate
com duas torres


2
3
Mate
com uma torre
1
2

3
Mate
com dois bispos
1

2
3

Termos
técnicos
Qualidade - Ganha-se
uma
«qualidade» quando se captura uma torre em troca de uma peça menor
(cavalo ou
bispo).
Gambito - Sacrifício
de um
peão ou uma peça para obter ataque, iniciativa, vantagem de
desenvolvimento ou
posicional.

Peões dobrados -
Peões da mesma cor,
na mesma coluna.

Peão passado - Peão
que já não
pode ser detido ou capturado por nenhum peão adversário.

Peça pregada - Uma
peça que não
pode (ou não deve) ser movimentada porque deixaria o seu rei (ou outra
peça de
valor superior como a dama) em xeque (ou ameaçada). Como
é o caso do Cc6
pregado pelo Bb5 no
seguinte diagrama.

Forquilha - Ataque
simultâneo
de um peão a duas peças

Xeque a descoberto -
Xeque ao rei que só
é possível quando movemos uma peça, cujo movimento vai permitir
(descobrir) que
outra das nossas peças passe a atacar (dar xeque ao rei adversário).
Este xeque
a descoberto pode ser xeque a descoberto duplo se a peça que se
movimenta também
ela der xeque além de descobrir a ação da outra.

Há
xeque a descoberto simples (da Torre em b5) com xeque mate Ra6++.
Note-se
que depois de Ra6++, o rei negro não tem as eventuais fugas c7 (por
causa do Ba5), nem c8 (por causa do Ca7), nem sequer a8 (por causa do
Bc6). O rei branco defende o Ca7 e a casa b7 está controlada por rei,
bispo e torre. O rei negro em b8 é ameaçado pela torre.

As pretas ganham com xeque a
descoberto duplo e mate (pela Torre em a7 e pelo Bispo em c3) com Bc3++.
Note-se
que, depois de Bc3++, não é permitido capturar (com o Bd4) nem a torre
nem o bispo negros porque o rei continuaria em xeque.
«Componho» - (ou
«j'adoube», ou
«ajeito») Expressão utilizada (em voz alta) antes de ajustar uma peça
na sua
própria casa. Assim, a peça é tocada mas não será obrigatoriamente
jogada (como
é obrigatório nas competições oficiais federadas). Nas competições de
xadrez
escolar, geralmente usa-se apenas a regra «peça largada é peça jogada»
em vez
de «peça tocada é peça jogada».
«Zugswang» - Termo
alemão
universalmente aceite para as raras situações onde ter a vez de jogar é
prejudicial. Um jogador em «zugswang» preferiria «passar», deixando de
jogar,
se pudesse.

Quem
joga vai obrigatoriamente permitir xeque-mate ao adversário com Cd6++.
Um caso raríssimo de zugswang duplo!
Conselhos
na abertura
Ao
contrário do que se
possa imaginar, a fase de abertura é menos complexa do que as fases
seguintes: o
meio-jogo (mais criativo) e o final (mais analítico e preciso).
De
um modo geral, as
aberturas guiam-se por princípios simples. Na abertura ou fase inicial
da
partida, o desenvolvimento de todas as peças é o mais importante, e
deves
fazê-lo o mais depressa possível.
O
que distingue as
aberturas,
umas das outras, é a estrutura de peões, ou seja, a maneira como os
peões estão
colocados (especialmente perto do centro do tabuleiro). Eis os
principais
conselhos práticos na abertura:
1.
Jogar primeiro o
peão de rei (e2-e4) ou o peão de dama (d2-d4), se possível os dois para
facilitar a saída dos bispos.
2.
Desenvolver os
cavalos antes dos bispos.
3.
Rocar o mais
depressa possível, para afastar o rei dos primeiros combates que
poderão
acontecer na zona central.
4.
Não jogar muitos
lances de peão na abertura.
5.
Não sair com a dama
muito cedo, pois poderá ser atacada facilmente por peças de menor
valor.
Depois
de algumas trocas sim, devem-se escolher as melhores posições para dama
e torres (estas últimas em colunas abertas, se possível).
6.
Jogar para o
controlo do centro.
7.
Esforçar-se por
conservar, pelo menos, um peão no centro
(d4, e4, d5, e5), e conservar essa
zona bem dominada (mesmo que desocupada).
8.
Não mover muitas
vezes a mesma peça.
9.
Sempre que
possível, proceder de modo a que um bom lance de desenvolvimento faça
ao mesmo
tempo uma ameaça.
10.
Não fazer gambitos
nem sacrifícios sem um bom motivo, como ganhar espaço, permitir maior
desenvolvimento, iniciar ataque ou impedir o adversário de rocar
enfraquecendo
defesas do rei adversário.
11.
Isto é tudo muito
bonito, mas...não convém perdoar quando o adversário se descuida e
oferece uma
peça ou um peão. No entanto, às vezes mais vale um bom lance de
desenvolvimento
do que a captura de um mero peão. Bom mesmo, é quando essa captura
aumenta
o nosso
poderio de ataque.
Mates rápidos


Há um mate
semelhante ainda mais rápido (2 lances) com negras_
1.f3? e6 2.g4?? Dh4++



Dado
que a saída
prematura da dama é geralmente errada,
quais
são os
movimentos ideais na fase de abertura?


Desenvolvimento
ideal

Alguns
factos sobre o
xadrez em Portugal
A
entrada do xadrez em Portugal deve-se aos árabes. Desde a reconquista
de
Odemira, por Dom Afonso Henriques em 1166, o xadrez passou a estar
presente como
jogo de reis. Mas, cedo, mudámos os nomes de algumas peças árabes (como
Vizir
ou Alferza) para Rei, Dama e Bispo. Este nome ‘Bispo’
foi introduzido
por portugueses e adotado pelos ingleses, séculos mais tarde. A peça
ainda
conserva, em Espanha e Itália, o nome de ‘Alfil’ e ‘Alfiere’, bem mais
próximo das
origens da cultura mouras (os franceses chamam-lhe ´Fou´ ou bobo da
corte, os
alemães ‘Laufer’ ou corredor e os russos conservam as origens indianas
e
chamam-lhe ‘Slon’ ou elefante). A conversão ao cristianismo não impediu
que o
xadrez ganhasse adeptos entre a nobreza e clero. Já no século XV, entre
alguns
judeus que recusaram o cristianismo, conta-se o boticário Damião (ou
Damiano
como ficou mundialmente conhecido) de Odemira (1480-1544). Ele fugiu
para
Itália, onde publicou um dos primeiros tratados de xadrez
(´Questo libro e da imparare giocare a scachi´, publicado em Roma em 1512).
Portugal está assim ligado a um dos primeiros livros de
xadrez,
alguma vez
publicados no mundo! Xadrez que D. João II jogava com
mestria, segundo
crónicas da época. Aliás, o monarca viajava com um xadrez portátil
(sobre
tabuleiro pintado numa almofada) que funcionava com alfinetes e até o
levou na
sua última viagem para o Algarve, onde acabou por morrer.



Com
a chegada do xadrez moderno no século XIX, já com as regras atuais, e a
organização primeiros Campeonatos do Mundo, organizou-se o primeiro
Campeonato
de Portugal, em 1911.
A
morte do campeão do mundo, Alexander Alekhine, no Estoril, acontece
(1946)
depois da segunda guerra mundial quando ele preparava, com amigos
portugueses
(entre os quais o médico Mário Machado, sem dúvida o melhor jogador
português desde Damião e percursor do excelente nível do xadrez por
correspondência em Portugal), um «match» contra o russo Mikhail
Botvinnik.
Consta
que Alekhine respeitava muito as ideias teóricas de Mário Machado.
Nos
anos seguintes, o
domínio do xadrez
em Portugal foi personalizado pelo mestre Joaquim Durão e,
mais
recentemente, pelo grande mestre António
Fernandes.
Na Olimpíada de Nice
1974, a seleção nacional atinge o 31° lugar entre 73 nações. Pouco
depois
Portugal conseguia os seus dois primeiros títulos de mestre
internacional
(Joaquim Durão e Fernando Silva). Mas a melhor prestação nacional de
sempre de
xadrez clássico acontece no Dubai, em 1986, com um notável 17° lugar de
Portugal,
entre 108 países.
Desde
então Portugal
tem mantido um
lugar no limiar do primeiro terço dos países membros da federação
internacional
/FIDE, que tem 181 países filiados (um pouco menos que a FIFA, que
ultrapassa as
duas centenas de membros), Na última Olimpíada, em Baku 2016, Portugal
obteve um bom 41° lugar entre 150 equipas.
Com cerca de 1700
jogadores com «rating»
internacional, Portugal está no 61° lugar na média rating (2416 –
nível de IM) dos seus 10 melhores mestres, entre 161 países com
jogadores
cotados. Portugal tem 3 grandes mestres (GM) e 14 mestres
internacionais
(IM), entre 52 jogadores titulados (Mestres FIDE – FM – e tituladas
femininas).
Em
xadrez Postal
(xadrez por
correspondência gerido pela Federação Internacional respetiva - ICCF,
inicialmente jogado por correio e depois por email, é hoje jogado na
internet em
servidor dedicado), Portugal tem a mais alta tradição como o 5° lugar
de Álvaro Pereira (GM, ICCF), na 13° Final Mundial, o 8° lugar de
Horácio Neto (GM ICCF), na 23° Final Mundial, ou o 4° lugar da seleção
nacional
(a seis tabuleiros) na 15°
Olimpíada,
ou ainda o
3°
melhor «rating» mundial (2680) atingido por Luís Santos (GM ICCF, além
de
IM de xadrez clássico), em 1987, que ainda hoje é o 14° melhor rating
de
sempre
do mundo.
Xadrez
e
personalidades da vida política recente nacional
Para
além do citado Dom João II, ou outros reis ou chefes militares
portugueses,
podemos destacar personalidades da vida politica portuguesa pós 25 de
Abril, que
foram e são bons jogadores de xadrez e que tornaram pública essa sua
preferência.
No
PCP podemos destacar Álvaro Cunhal que jogou na
prisão de Peniche
(usando miolo de pão como peças), a par do ex-presidente da Câmara
Municipal de
Loures Severiano Falcão (foi com ele como
presidente que começou o
xadrez escolar em Loures). Mas Adão
Barata (ex-presidente da CM Loures) ou Rego Mendes (vereador do
desporto na CM Lisboa, aquando da
presidência do município por Jorge Sampaio) também não esconderam a sua
ligação
estreita ao xadrez.

No
PS, destacam-se os ex-líderes Vítor
Constâncio e ex-presidente do Banco de Portugal (além de bom jogador
possui uma vasta biblioteca com livros de xadrez) assim como António
José Seguro (que até jogou uma
partida nas finais interescolares de Odivelas, em 2004). Conhecidas
também as
fortes opiniões de outros dois bons jogadores de xadrez, na área do
PSD:
José Pacheco Pereira ou Vasco
Graça
Moura (este
último foi um dos homens mais cultos de sempre em Portugal),
ambos defensores de um programa para jovens sobre xadrez na televisão
pública.
